Divagações sobre a morte
Martha Medeiros
Hoje é dia de finados, dia de ressuscitar um pouco aqueles que a gente tanto amou um dia. Quando levamos flores no cemitério ou mandamos rezar uma missa, estamos dando aos nossos mortos um pouco de vida através da nossa memória. Morto, mesmo, está quem não é lembrado.
Visitar cemitérios, em algumas cidades, é passeio turístico, dependendo da suntuosidade dos mausoléus e dos mortos ilustres ali enterrados. É o caso do cemitério de Père-Lachaise, em Paris, e o da Recoleta, em Buenos Aires. Não acho mórbido, mas também não vejo graça. Aliás, não consigo nem mesmo me emocionar ao visitar as casas onde viveram grandes artistas. Não consigo glorificar o chão onde pisou Mozart ou as canetas que Freud usava para fazer anotações. Não me comove a cama onde dormiu Napoleão ou os vestidos usados pela princesa Diana, a despeito de toda informação histórica recebida. Há pouco tempo, passei em frente à casa onde viveu Hitchcock, em Londres. Ele saía todo dia por aquela porta, caminhava pela mesma calçada em que eu estava. Mas não senti nem um arrepio, nada que se comparasse às sensações provocadas por seus filmes. Cultuo a obra, as ideias de uma pessoa, suas conquistas, mas não os seus talheres ou escrivaninhas. Diante da enormidade de uma herança emocional, intelectual ou artística, pouco me importam os móveis e utensílios, são curiosidades visitadas, material de estudo, mas não de referência. Nessas horas é que eu vejo que a morte tem um adversário a altura: a vida. Esta me interessa imensamente, principalmente as que estão em plena vigência de contrato.
Quem nunca imaginou o próprio enterro? Quem iria, quem não iria, quem sentiria de verdade a nossa falta, quem estaria lá só por conveniência social, o que o padre diria, e se o caixão estaria aberto ou fechado. Entendo a necessidade de os parentes e amigos se despedirem, mas, convenhamos, nada pode ser mais invasivo do que nos espiarem quando já não existimos mais.
E que tipo de morte desejamos, se é que cabe aqui empregar o verbo desejar? Nisso somos todos iguais: que demore muito pra acontecer, mas, que, chegada a hora, seja breve. Uma morte sem rodeios.
Domingo, 2 de novembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.